como poupar biliÕes e conseguir casas e edifÍcios mais cÓmodos e com menos poluiÇÃo. O caso brasileiro e portuguÊs

Não é necessário qualquer milagre. É possível poupar biliões, reduzir drasticamente o impacto ambiental e melhorar os níveis de conforto das nossas casas e outros edifícios. A solução: eficiência energética dos edifícios, e códigos reguladores dessa matéria. Exato... Códigos energéticos! Essa matéria aparentemente tão desinteressante e técnica tem uma importância fulcral para todos nós, e para o nosso futuro.

Como é que tal é possível?

Há questões básicas e evidentes que estamos constantemente a ignorar. Veja-se o caso das janelas das nossas habitações, ou das suas portas exteriores e frigoríficos ou mesmo questões de sombreamento dos nossos edifícios.

À escala global de um país, milhões de frigoríficos a consumir duas ou três vezes mais do que deveriam, biliões de janelas com vidros e caixilharias/esquadrias inadequadas, milhões de portas exteriores de alumínio e outras portas baratas que são autênticos buracos a nível térmico, milhões de casas sem sombreamento adequado no tempo quente, etc. provocam consumos energéticos muito mais altos do que aconteceria se os nossos edifícios e os seus equipamentos estivessem concebidos de outra forma, ou fossem mais eficientes.

E não o estando ou não o sendo, isso requer dezenas ou centenas de centrais de produção elétrica, muitas delas alimentadas a carvão ou gás (ou a energia nuclear) com todos os enormes custos ambientais a elas associadas.

E só há uma forma de o evitar: códigos a exigir padrões de eficiência energética a nível da construção de novos edifícios (ou a promover melhoramentos térmicos aquando de remodelações nos edifícios existentes), de modo a viabilizar um setor de produção elétrica mais pequeno. A questão da eficiência energética, frequentemente menosprezada, é uma área fundamental para o nosso futuro, intimamente ligada a todo o setor elétrico e energético e a questões ambientais, nomeadamente a questões que envolvem o aquecimento global e a qualidade do ar.

Daí o interesse em se saber o que se passa a este nível em Portugal e Brasil, e o que se perspetiva para os próximos anos.

O caso português

Etiqueta edif?cio classifica??o energ?ticaEm Portugal, a construção de edifícios está neste momento enquadrada por normas europeias. Essas normas prevêm a classificação dos edifícios em termos de gastos energéticos e, a partir de 2020, que os novos edifícios venham a ser de Energia Zero, ou seja, capazes de gerar uma produção de energia elétrica renovável equivalente aos seus consumos de eletricidade e gás (Directiva 2010/31/UE, artigo 9º).

As normas previstas a partir de 2020 são extraordinariamente importantes nas suas implicações.

Ao reduzirem os consumos energéticos dos edíficios para zero, elas vão reduzir progressivamente os consumos elétricos do parque de edifícios, e consequentemente o número de centrais de produção elétrica convencionais. Vão por outro lado permitir que a atual capacidade de produção elétrica seja ajustada e progressivamente orientada para outros setores, nomeadamente o futuro setor dos transportes elétricos.

A situação brasileira

O Brasil está numa situação diferente. Não há neste momento um modelo para o futuro, nem sequer um código geral de eficiência energética de edifícios. O atual sistema depende basicamente das prefeituras – mais concretamente dos Códigos de Obras e Edificações dos municípios - e é muito pouco ou nada vinculativo a nível da eficiência energética. As normas de eficiência são muito raras e esparsas, o que constitui um erro tremendo em termos de política energética e de crescimento económico sustentável.

O Brasil tem toda a vantagem em manter o consumo energético dos seus edifícios a um nível baixo; em termos internacionais ele é de facto muito baixo, mas mais que triplicou nas últimas duas décadas. O sector habitacional (23%), os edifícios comerciais (13%) e os edifícios públicos (8%) consomem presentemente cerca de 43% da eletricidade do país.

A tendência de forte crescimento recente não pode ser mantida. Isso implicaria a construção de um número elevado de novas centrais hidroelétricas, a gás, ou de outro tipo, o que seria demasiado dispendioso e desvantajoso para o país. Há outra solução muito mais vantajosa que não colide com o crescimento económico brasileiro e que pode gerar níveis superiores de conforto a nível dos edifícios, sem aumento dos atuais níveis de consumo: eficiência energética, ou seja, edifícios bem posicionados em relação ao sol, às brisas, com bom sombreamento, janelas altamente eficientes, adequados níveis de isolamento térmico das paredes, frigoríficos e outro equipamento doméstico eficientes, etc.

Conclusão: o Brasil não pode continuar, como até aqui, sem códigos de construção federais vinculativos em matéria de eficiência energética. É, ao fim e ao cabo, uma área que mexe com triliões de reais, ao se ligar a todo o sector da construção civil e da energia - uma área não pode ser deixada à pura dinâmica do mercado.

Que modelo?

Resta determinar que tipo de código deve o Brasil adotar. Um código à europeia, como o atual código português, centrado na classificação energética dos edifícios? O modelo americano, envolvendo casas Energy Star e normas LEED (implementadas em alguns edifícios e projetos brasileiros)? O futuro modelo europeu dos Edifícios Energia Zero? O modelo australiano, requerendo que as novas habitações sejam pelo menos 6 Stars?

São várias possibilidades; e é uma questão basicamente aberta e dependente da vontade e capacidade das forças políticas brasileiras, e do modelo energético que se quiser adotar para o país. Mas os modelos Edifícios Zero Energia e o modelo australiano parecem-nos ser os mais interessantes para o Brasil.

O código australiano de eficiência energética para edifícios: um bom Modelo para o Brasil?

O modelo de australiano, contrariamente ao atual modelo europeu, não se limita a avaliar os edifícios, e a atribuir-lhes uma classificação em termos de consumo energético, deixando aos construtores e aos compradores as decisões finais. O modelo australiano exige que os edifícios atinjam determinados patamares de eficiência, fixados neste momento em 6 estrelas.

Todos os novos edifícios australianos são avaliados segundo um programa informatizado, desenvolvido para o efeito, de acordo com um protocolo administrado pela NatHERS (Nationwide House Energy Ratings Scheme). Este protocolo tem em conta a zona climática, as implicações térmicas do design da casa e os diversos fatores de eficiência energética: a orientação do edifício, a colocação das janelas e o seu tamanho, questões de ventilação e sombra, os níveis de isolamento térmico, os materiais utilizados na construção e até a cor dos telhados dos edifícios (as cores claras são importantes para diminuir ganhos indesejados de calor).

Nada, portanto, de verdadeiramente novo, a nível das vias de aumentar a eficiência energética dos edifícios. A novidade está no seu caráter vinculativo e obrigatório (o que deverá acontecer também, dentro de alguns anos com os modelos europeus).

E isso é um aspecto crítico, atendendo ao que está a acontecer neste momento em Portugal e noutros países europeus, em que a questão energética é minimizada pelos compradores de moradias, com o mercado  e a maioria dos agentes a desvalorizar a importância da questão energética a nível dos edifícios.

Daí que o modelo australiano seja à partida claramente preferível, até pelas similitudes que existem entre as várias zonas climáticas australianas e brasileiras.

Ver, sobre esta questão: Austrália: obrigatório construir casas de baixo consumo energético (infográfico).

 

 

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